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primeiro croquis para o comedouro

Agostinho da Silva (Porto, 1906 – Lisboa, 1994) aborda diversas vezes em sua obra filosófica a singularidade da “Festa do Divino” (celebração de um mundo futuro e não do passado, que objetivava preparar a sociedade para um futuro utópico) como argumento para problematizar o presente. Décadas depois do exílio no Brasil (período em que colaborou na fundação e estruturação de algumas universidades públicas brasileiras, dentre elas a UnB), numa das “Conversas Vadias”, série de entrevistas televisionada pela RTP em 1990, dissera que sua impressão era a de estarmos perto de “entrar numa coisa parecida à que os portugueses e alguns italianos intitulavam de Idade do Espírito Santo. Em primeiro lugar, a Idade em que as crianças cresceram tanto que a sua espontaneidade e capacidade de sonhar nunca se extinguisse e um dia fossem capazes de dirigir o mundo. Em segundo que a vida fosse gratuita”.

Todavia, passados trinta anos, nada indica que estejamos tão perto desse futuro. Talvez, algo tenha nos afastado dessa visão anunciada por Agostinho…

Mirando por outro ponto, Dardot e Laval, em “La Nouvelle Raison du Monde”, argumentam que o neoliberalismo exerce tamanho controle sobre anseios individuais que apresenta-se como um modo natural das coisas; vemo-nos como empresas de nós mesmos, de modo que, nem o ócio está imune a tal pensamento econômico e será também guiado por noções de desempenho/sucesso.

Mas por que observar pássaros?

As aves silvestres, além de serem empregadas como alegorias da liberdade e do Divino Espírito Santo, exemplificam bem a não-propriedade de Michael Hardt em “O Comum no Comunismo”. Então, diante das câmeras de segurança, ao substituirmos suspeitos por aves livres e vigilância da propriedade pela contemplação de ‘commons’, esperamos produzir uma metáfora imanente do livre viver.

Voltando à Festa do Divino, se um evento nos dá a oportunidade de experimentar uma utopia, o quê ou quem nos impede de estender essa experiência para o futuro?

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notas:

  1. Devido à baixa intesidade da luz solar de inverno, a montagem em Berlim tem passado longos períodos off-line.
  2. A montagem de Campo Grande conseguiu ótimas condições em relação à energia elétrica, porém, muito recente, ainda aguarda a visita dos pássaros (16 de out. de 2019).